futebol e mulher

25/02/2009

A ESCOLHA DO TIME

Uma amiga sugeriu o tema, mas isso não é sugerir, é jogar a batata quente; ela sequer mandou uma dica, um fio por onde eu pudesse começar a destilar a maldade toda. Então, escolhi um caminho:


A primeira hipótese é a de que nada tem a ver com nada. "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". O homem escolhe um time por pura falta do que fazer. Se sentisse as cólicas da contração no parto, se acordasse 43 vezes por noite para acudir o bebê, se tivesse TPM e, mesmo depois de fazer o melhor pela humanidade, amamentando a cria, a natureza deixasse seu peito cair, o homem não perderia tempo com escolha de um time de futebol e nem morreria por isso. Ele entenderia que a vida tem sentido.


Segunda hipótese; o homem não sabe pensar, ou melhor, não pode refletir sobre o próprio umbigo, pois descobriria que ele não é o bam-bam-bam que a mamãe dizia; o que o faz agarrar-se na primeira coisa espalhafatosa que ofusca seus problemas íntimos, internos, edipianos, seus transtornos sexuais, suas inclinações narcísicas, e outras tantas coisinhas ocultas, obscuras e indefensáveis.


Na outra hipótese, usaremos uma linha de pensamento freud-jung-lacaniana, sem qualquer compreensão do que é a teoria psicanalítica, aplicando-a aqui com um justo charlatanismo, por que a questão não merece mais que isso. A escolha do time está intimamente relacionada com o time que o pai escolhe ou deixa de escolher. O sujeito torce pro mesmo time do pai, ou então, torce para o time adversário. Que conclusão sábia, não? Continuando com a mesma astúcia: a escolha está relacionada ao pai, seja ela, contra ou a favor, e isso dependerá de uma questão interna bem ou mal resolvida.


Não me pergunte qual escolha é a bem resolvida, já que escolher o mesmo time do pai pode significar tanto uma identificação quanto uma imitação, um comodismo, até mesmo que seja um pau-mandado e obediente filho. Escolher o time adversário ao do pai, também é uma questão dúbia, pode ser aquilo que o fez compreender que o pai é superável, mas pode também significar que o pai não foi pai o suficiente, por isso o filho, escolheu o time do leiteiro ou do padeiro ou açougueiro ou do pedreiro ou do jardineiro.


E tem aquela mais usada e serve como uma peneira esfuracada pra tapar o sol, a escolha do time pela identificação com a torcida ou com um ídolo do momento. Esta desculpa é tão bonitinha, redondinha, bem arranjada e encaixada, que gera desconfiança e não merecia sequer, ser citada aqui. Mas preciso colocar pra não receber emails dizendo que eu me esqueci de falar sobre isso.


A conclusão é a de que torcendo pelo mesmo time do pai ou contra o time do pai, tudo leva a crer que dá na mesma.


Se você colocar uma lente de aumento neste ponto, notará que o homem não torce só a favor do seu time, ele torce contra os outros times. É visceral, do âmago, das entranhas, essa inveja intensa, sombria e enigmática do outro. Inveja é aquele sentimentozinho que todo mundo tem e esconde, por que mamãe falou que é feio.


O que importa mesmo, lá no fundo, é que o outro time perca e se ferre muito. A felicidade dele é a mesma quando seu time ganha ou quando o arquiinimigo perde feio. E pra isso, qualquer time serve, o imprescindível mesmo é ter o outro time pra torcer contra.


Torcer por um  time, justifica o sentimento condenável de se deliciar pela desgraça alheia. O time do coração é o seu escudo, seu aval, seu álibi. Quem não amaria algo assim?

LEIA TAMBÉM www.mulherefutebol.com


Escrito por marina miyazaki araujo às 00h06
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